ele continuava esperando, sentado no banco da praça sem nenhuma preocupação com conforto, pernas cruzadas esticadas pela calçada. observava o tráfego e pensava em si mesmo, esse eterno desconhecido. Por que esperava ali se tinha absoluta certeza de que ela não apareceria? Por que insistia em permanecer ali, sendo que nem ele mesmo queria que ela aparecesse? Sim, um traço da sua personalidade se revelava, seu masoquismo sentimental era evidente. Caso ela viesse ao encontro, ele a teria diminuta em seu conceito, esnobaria-a inconscientemente, como um troféu que no dia seguinte ao da conquista é apenas de metal.
Então descortinou-se a sua frente todo seu futuro amoroso. Não importaria quantas mulheres cruzassem seu caminho, todas elas estariam fadadas a seguir o mesmo modus operandi: ou perdiam o interesse ou seriam desinteressantes. A hipótese de haver uma mulher que o amasse e que ao mesmo tempo fosse amada por ele era impossível pois uma condição excluía a outra. Seu interesse era diretamente proporcional ao desinteresse da pretendente.
Nenhum desespero. Nem sequer um resíduo de desapontamento ou medo. Encarando a situação, uma calmaria interna se estabeleceu e ele compreendeu que não poderia ser diferente, mesmo porque ele não queria que fosse. Não queria mudar, não havia motivo para isso em sua cabeça; estava tudo em concordância com o que deveria ser.
Restavam para ele duas opções no campo afetivo. Ou se apartava de qualquer sentimento significante, acorrentado a uma indiferença amarga para que assim não sofresse e não fizesse outros sofrerem por amor; ou apostava num amor platônico, e ao entregar-se ao idealismo dos poetas românticos estaria livre do maior sofrimento que o amor pode infligir: o de nunca ter amado.
Sem êxito nem hesitação, estava decidido.
"Amarei às escuras. Afugentarei a solidão com sombras nascidas do segredo. Inventarei histórias, devaneios que me distrairão do mundo real. Será como um eterno viver no momento mágico antes da conquista, quando ainda as dúvidas sobre o futuro são saboreadas vagarosamente pelo amante. Evitarei a certeza, fugirei da exatidão, navegando meu barco de fé, a favor do vento e indo em direção ao infinito."
Bem-aventurado o professor...
Há 2 dias
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