sábado, 23 de janeiro de 2010

Escrever...


Claude Monet - The Brigde at Argenteuil

Quando se tem um blog e isso realmente significa algo, sente-se emergir uma pergunta inquietante sobre o que escrever. Nessa pergunta residem outras mais, cada qual renderia reflexões intermináveis e interessantíssimas. Para quem escrever? Com que objetivo? De que forma atingi-lo?

Creio que o exercício da escrita vale-se por si mesmo. Qualquer que seja o tema, escrever proporciona ao escritor uma rica experiência em que se desenvolve uma habilidade se não essencial, ao menos extremamente desejável.

Quanto a mim, escrevo para todos e para mim mesmo. Esse é o grande presente da internet, a doce incerteza de não saber se alguém vai ler aquilo que foi publicado, seja no presente ou no futuro.

Os assuntos vou buscar no meu espírito. Aquilo que mais me chama a atenção na nossa existência vale a pena ocupar este humilde espaço. Escrevo na esperança que aquilo que publico aqui chame a atenção de outros.

domingo, 29 de novembro de 2009

O acidente



Pessoa na janela - Salvador Dalí

Fingi não ouvir quando ele me chamou. Não queria que me aborrecesse mais do que aquela prova estúpida que havia feito naquela manhã. Ele falaria de tudo aquilo em que não acredito. E não quero acreditar. A vida é simples: vida e deixe viver. Não há nada demais nela, basta que eu faça o meu melhor, de acordo com minha cabeça e...

-Com licença, você já ouviu falar de Bahá'u'lláh?

Pronto, lá vem. "Barrá-o-quê"? Que falta de bom-senso dessas pessoas... Se elas têm sua fé, ótimo! Não me venham aborrecer!

-Não, não. Com licença, estou com pressa.

Fiquei culpada de ter sido ríspida com ele, mas fazer o quê... Aquela maldita prova! Com certeza estou de final e vou baixar meu IRA e desperiodizar. Droga de Curso, droga de vida.

(FOOOOOM, FOOOOOM!) (CRASH!)

GAZETA DO POVO, dia seguinte - Morreu ontem estudante de Medicina, atropelada na Rua Dr. Faivre, foi levada às pressas para o Hospital Nossa Senhora das Graças mas não sobreviveu (...)

* Bahá'u'lláh. Era esse o nome. Obrigado. Obrigado.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Ensino a um comunista 1


Gustav Klimt - Water Serpents II

Chega pra vc um comunista, daqueles super esquerdistas que já leram tudo do Marx, anarquismo, acham Cuba o máximo e ainda sonham com a revolução do proletariado. Ah! Detalhe: São materialistas. Deus para eles é apenas uma forma de controle que os que estão na classe dominante usam. Como ensinar a Fé?

Iniciaria falando sobre a mudança do mundo (é o que temos em comum):

Vivemos tempos difíceis. Temos hoje o potencial de vivermos todos trabalhando pouco e todos com um certo nível de conforto. Mesmo assim, permanece a maioria da população mundial trabalhando muito e com péssimas condições de vida. Não podemos mais suportar essa situação, o ser humano não foi criado para suportar inerte tamanha injustiça!

Nesse ponto o camarada está concordando com tudo, e vc ainda não falou em Deus. Captou sua atenção.

A mudança necessária não poderá vir de cima para baixo. Somos seres pensantes e muito questionadores de autoridades impostas. Não daria certo impor a igualdade, impor a irmandade ou impor a Unidade entre os homens. Isso parte de cada um deles. Em suma: a transformação precisa ser de baixo para cima.

Mostra uma idéia nova, um ponto de vista interessante, encaminha o pensamento.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Segunda, dia de finados


The Conversion of Saul by Michelangelo Buonarroti 1475 – 1564

Pedro desejava sair passear. Caminhar descalço nalguma praia não seria nada mal. Ouviu a voz de sua esposa lhe pedindo para comprar alguma coisa, obrigando sua mente a retornar a seu mundo incompleto. Isso o irritou um pouco.

Ao retornar com as sacolas irritou-se ainda mais com os latidos furiosos do cachorro do vizinho que pegara uma antipatia especial por ele. Pedro não odiava animais, somente aqueles que o incomodavam. Entrou em casa em silêncio e depositou as compras sobre a mesa.

Decidiu continuar sua leitura de "O velho e o mar", já era a 3ª vez que lia aquele livro e acreditava piamente que os clássicos deveriam ser apreciados várias vezes, como um bom vinho.

Quando principiava a leitura, já se tranportando para a companhia do sofrido pescador com quem simpatizava como se fosse seu falecido pai, ouviu a voz de suz esposa cortar o ar e atingi-lo. Havia esquecido as azeitonas.

Jogou o livro na parede, pegou a carteira e voltou ao mercado. Sua vida parecia demasiado estafante e naquela semana não fizera amor nenhuma vez com a esposa. "Talvez seja isso que a motive a me perseguir", pensou, já mais calmo por ter encontrado uma razão lógica para seus conflitos não-resolvidos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O infarto



"Blue nude - Pablo Picasso"

Ele se olhou no espelho, viu um estranho. Quisera ser como os cachorros, que vivem em ciclos iguais de rotina. Não suportava a pressão de ter que viver novas experiências dia após dia. O desconhecido o assustava devido ao seu pessimismo e desconfiança com relação ao destino e já não esperava mais nada de ninguém.

Parou de se alimentar. Engolir a comida o chateava, e decidir o que comer era um martírio. Vivia entre a dura decisão entre o que gostava e o que lhe fazia bem para a saúde. Pensando agora soa estranho, do que vale boa saúde em um suicida?

Não, ele não se mataria. Não tinha coragem suficiente. A vida toda fora covarde e continuaria a se arrastar pelo resto de seus dias, fingindo ser o que não era. sorrindo para todos com uma máscara de espinhos cravada em sua face. Engoliria toda a amargura daquela existência e na velhice, já com os seus netos dançando diante de si, saberia então que valeu a pena cada segundo.

Chamou então a esposa, com quem dividiu a alma, e tentaria em vão lhe transmitir o que sentia. Consciente disso, a abraçaria com os olhos ainda secos, seu peito apertando cada vez mais e o desejo do desconhecido renascendo de sua recém-nascida fé em Deus.

Morreu em paz.

domingo, 18 de outubro de 2009

A traição



Meninos Brincando, Portinari, 1955

Ele já sabia o que iria acontecer. Quando abrisse aquela porta, a imagem que sua retina iria refletir já estava em sua mente, seria apenas um dejà ju. Mesmo assim, tremeu ao tocar o frio metálico da maçaneta.

O giro da engrenagem cortou o silêncio de sua casa, e hesitou por um momento antes de escancarar a porta. Quando o fez, porém, arrependeu-se de não ter tido a coragem de virar às costas e ir embora sem nunca mais falar com ela.

Trocaria o número do celular, não, jogaria o celular no rio. Era homem suficiente para ter uma atitude irracional de vez em quando, apenas quando a situação exigisse. Ela o procuraria nos hospitais, ligaria para a polícia, iria até mesmo nos necrotérios da cidade. A incerteza seria seu castigo. O sofrimento dela seria inúmeras vezes maior que o dele, que conhecia o início meio e fim da história, por mais dolorosa que ela fosse, estava pronta para ser resolvida em sua mente.

Sua auto-estima já estava recuperada 3 meses depois do incidente. Aguardava, com uma certa ansiedade, sua próxima viagem. Chegaria em casa novamente de surpresa e sentiria o mesmo frio metálico nas mãos. Mas dessa vez não se arrependeria de mais nada.

-Benzinho, me traz um copo d'água?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O gafanhoto verde e o pequeno dragão


"Os Operários, Tarsila do Amaral"

Os treinei nos caminhos da sabedoria, com paciência e ousadia nos momentos certos. Gafanhoto estava sempre logo atrás de mim, sempre observando atento. Afeiçoei-me a ele, e ele a mim. Ia firme e irresoluto em cada passo que eu dava, ele adquiriu confiança em mim. E eu lhe ensinei tudo o que sabia. O pequeno dragão era mais distante, acabei por não dar muita atenção a ele.

Quando já não havia mais nada a ensinar, o gafanhoto se foi. Entristeci-me no início, mas logo me conformei, como mãe-pássaro que observa contida seus filhotes alçarem vôo.

Logo, o pequeno dragão seguiu o mesmo destino. Era impaciente, depois fui descobrir. Mas tudo correu bem e mesmo sem ter certeza, creio que seguiram com segurança seu destino até o fim.